Se tu não olhas para mim…
Um dia estava a falar com um amigo no adro da nossa paróquia, em Taiwan. Muitas crianças estavam a brincar, como é habitual (na nossa paróquia é assim: muitas crianças, mesmo se não são cristãs, vêm brincar no nosso parque). Naquele dia estava também uma menina, de 4 anos, que eu chamo “Mei-Mei”. é muito simpática e tem uma grande estima por mim, conhecemos-nos desde quando ela nasceu, eu era apenas recém chegado a Taiwan. Por isso, o nosso nível de chinês é mais ou menos igual… Ela gosta muito de andar no escorrega e naquele dia começou a dizer-me: “Shen fu, Kan!”, que quer dizer: “Padre, olha!!”. E eu respondi: “Está bem, Mei-Mei, está bem”. E ela disse-me novamente: “Shen fu, Kan!” (“Padre, olha!”). E eu disse: “Está bem, eu olho”. E ela diz de novo: “Shen fu, Kan!”…., então eu disse-lhe: “Mei-Mei, eu olho, mas para ver o quê?”. E ela respondeu: “Kan Wo!”, ou seja, “Olha para mim!”.
Depois de um momento de silêncio comecei a olhar para ela. Baloiçava para cima e para baixo no escorrega e esperava sempre o meu aplauso. “Muito bem, Mei-Mei, muito bem!”, disse. Uma, duas, cinco vezes… Para a frente e para trás, para cima e para baixo: “Muito bem, Mei-Mei” e, assim, de novo.
A uma certa altura, sem fazer atenção, não olho na sua direcção e retomo a conversa com o meu amigo. Pouco depois, apercebo-me que a “Mei-Mei” está parada e que me observa. Silenciosa, tinha um ar desiludido. Estava no escorrega, mas já não ia para a frente e para trás. Estava sentada, imóvel e continuava a olhar para mim.
Era come se me dissesse: “Sim, mas se tu não olhas para mim, que sentido tem aquilo que eu estou a fazer? Se tu não olhas, de que me serve andar para a frente e para trás, para baixo e para cima, no escorrega?”. E assim, naquele momento apercebi-me que eu sou como aquela criança. Que cada um de nós é como aquela menina. Que cada um de nós precisa de ser visto por alguém que te ama, que te quer bem e que te diz que aquilo que tu fazes tem um sentido. Caso contrário, qual é o sentido de todo o meu empenho na vida, todo o meu andar para a frente e para trás, o meu trabalho, o meu cansaço, se não está alguém a olhar para mim neste momento, alguém que me ama e que me quer bem?
O Natal é a festa que nos lembra que Deus, desde sempre, olha para nós e nos quer bem, até ao ponto de decidir de tornar-se como um de nós para poder estar connosco sempre e dizer-nos continuamente que aquilo que fazemos tem um sentido. Nós estamos em Taiwan para demonstrar a este povo que existe alguém que olha para eles e que os ama. E podemos fazê-lo porque, também nós, temos a consciência, de ser olhados e amados.
Mas Jesus é também aquele Deus que decidiu tornar-se pequeno como nós, pequeno como tu e eu, pequeno como uma criança pequena. E pede-nos a mesma coisa que pedia aquela menina: “Olha, olha para mim!”.







