Deixar espaço a Outro
Publicado por Massimo Camisasca o 26 Março 2010 ·
Carta mensal aos membros da Fraternidade
Fevereiro-Março 2010
Caríssimos,
Iniciámos, há poucos dias, a Quaresma.
Quereria partilhar convosco algumas reflexões que me têm acompanhado nestes últimos dias e que já partilhei com os meus seminaristas.
A Quaresma convida-nos a deixar a imagem e o preconceito que temos de nós próprios para, assim, encontrar Deus e poder descobrir, n’Ele, o nosso “eu”. É Ele que nos abre às verdadeiras dimensões da nossa personalidade. É Ele que nos ensina o que é bom para a nossa vida e quais são as estradas para alcançá-Lo. Com certeza, esta passagem implica uma sensação de morte. Várias vezes don Giussani comenta esta experiência de mortificação como um semblante de morte. Parece que devemos deixar tudo.
O sacrifício é deixar espaço a Outro. Deixar que Outro tome espaço na minha vida, entre na minha vida a pouco a pouco até a ocupar totalmente, tornando-se no meu eu: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal. 2, 20). O sacrifício é deixar espaço a Cristo. É a Páscoa, a passagem do aparente ao real, do demónio a Deus, do eu como significado de tudo a Deus como significado de tudo.
O horizonte da Quaresma não é a mortificação, mas que cada um se encontre: “quem se perde, se encontra”. O sacrifício é a estrada necessária para que a nossa natureza, propensa ao mal e à divisão, possa encontrar a sua identidade.
Mas não se trata de uma passagem imediata. Implica muito tempo. O significado comum do sacrifício é aquele de sofrimento. Porque é que estas duas palavras estão fortemente ligadas? Qual a necessidade de fazer um sacrifício que nos faz sofrer? Porque conduz a uma mudança. É um sacrifício porque é a passagem para um bem maior, do qual ainda não temos percepção. Mas Deus é o nosso guia e enche-nos de consolação.
Santo Agostinho no décimo primeiro capítulo do “De Civitate Dei” afirma que o único sacrifício é a comunhão. O único sacrifício é a passagem há comunhão, ao ponto de proclamar: “meu eu és tu”. O único sacrifício, portanto, é o amor. É a grande revolução acarreada, primeiro pelos Profetas e depois pelo próprio Jesus, à história do mundo. O Seu amor torna possível todos os sacrifícios para afirmar o Outro, também o sacrifício da própria vida. Por isso, a Igreja identifica virgens e mártires como a forma mais elevada de amor, porque a virgindade e o martírio são o testemunho que a maior alegria da vida é afirmar Outro, afirmar que o tudo é um Outro.
As promessas que fazíamos, quando éramos jovens, não tinham outro sentido se não neste horizonte: afirmar o facto que o Outro é tudo. Assim, os sacrifícios que a Igreja convida a viver neste tempo quaresmal, como o jejum, a esmola e a oração, não são uma renúncia, mas uma afirmação. Neste sentido o sacrifício é a antecipação da Ressurreição.
O sacrifício, portanto, é a estrada para a comunhão, é o espaço que abrimos para o Amado. Isso é tão verdadeiro que no momento supremo da história do mundo, sacrifício e comunhão são duas palavras que indicam a mesma realidade: a Eucaristia. Na Eucaristia percebemos que o sacrifício já é comunhão, já é tudo, porque o sacrifício é fazer espaço ao Outro e isto já é tudo.
Vosso don Massimo







