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O dom da ressurreição

E0670_ElioCiol3Ao aproximar-se o tempo da Páscoa, Jesus ressuscita Lázaro. Aquele gesto explica toda a dimensão revolucionária do anúncio que ainda hoje ressoa no mundo: “Quem acredita em Mim, ainda se morre, viverá” (Jo 11,25). A morte, de facto, não é eliminada, mas é vencida. Depois de sua mãe e José, Jesus não tinha nada de mais querido que os irmãos Maria, Marta e Lázaro. Eventualmente, só João ocupava o mesmo lugar que estes ocupavam.

Por isso, não é sem significado o facto que Jesus ressuscite Lázaro. O seu amigo, o seu mais caro amigo. A vida surge da amizade, é ultimamente amizade. E esta em Jesus nasce da sua paixão pelos homens. João, no seu Evangelho, descreve assim a reacção de Jesus perante a morte do seu amigo: “Comoveu-se profundamente, e depois chorou” (Jo 11,38).

A comoção de Jesus e a ressurreição de Lázaro representam, para cada um de nós, o sinal que a vida não acaba. Mesmo se estamos sujeitos ao sofrimento e à dor, esses não são definitivos: a última palavra pertence à vida que Ele porta.

Lázaro ressuscita para depois morrer. Cristo, no entanto, ressuscita para não mais morrer. A ressurreição de Lázaro, na realidade, é só uma prefiguração daquela de Cristo. É uma antecipação, como que um dom saboreado antes do tempo. Através dessa, Cristo dá-nos a entender que o dom da sua ressurreição transforma a nossa vida presente: já na nossa vida presente nós ressuscitamos!

A nossa vida transformada é a sua glória no meio dos homens. De que coisa necessitamos para participar a este dom? Trata-se de uma pergunta importante. Seria verdadeiramente terrível ouvir o anúncio de um grande dom e não poder recebê-lo. Para que isto seja possível precisamos de viver uma amizade com Jesus, como aquela de Lázaro, Marta e Maria. Uma amizade que seja custodie da prenda preciosa que é a fé, que nos permita de renascer, de ressuscitar a cada instante. Em cada dia que passa necessitamos de viver a experiência da ressurreição. Em cada momento, apesar das tribulações e das dificuldades, a nossa velhice transforma-se numa juventude na qual vivemos uma experiencia concreta. Apercebemo-nos de ser mais verdadeiros, mais conscientes, mais próximos às coisas da vida.

O objectivo de qualquer amizade cristã é transformar a velhice em juventude. “Nasce-se velhos -escreveu Jean Guitton- e é preciso toda a vida para tornarmo-nos jovens”. Esta é a razão de ser de uma fraternidade, qualquer que essa seja. É esta juventude, é a experiencia desta juventude, que permite de caminhar, e ao mesmo tempo, manter a proximidade, que permite de amadurecer uma consciência sempre maior da ressurreição de Jesus, que é a única graça que nós podemos, devemos e queremos portar aos homens. Porque os homens têm uma só necessidade: ser conscientes que a vida não é uma passagem do nada para nada, mas que a nossa vida é amada e desejada por Deus consciente e amoroso, por um Pai. E este Pai acompanha-nos e espera-nos.

photo: © Elio Ciol

19 Maio 2010 | Archiviado en Artigos recentes, Destaques |  

Um novo começo

IMG_6573Romano Christen há poucos meses em missão em Colónia, Alemanha, juntamente com Gianluca Carlin, Georg del Valle e Lorenzo Di Pietro.

Padre Romano há pouco tempo foi aberta uma casa da Fraternidade em Colónia, Alemanha. Qual é a tua primeira impressão desta cidade?

Estamos em Colónia desde Agosto de 2009. A cidade tem uma história imponente: fundada há dois mil anos pelo povo romano, durante séculos o centro da Europa, era também chamada a “Roma do Norte”. Uma cidade com uma história muito católica, pátria de muitos santos, rica em Igrejas românicas e góticas. No entanto, se dás uma volta no metropolitano ou caminhas pelas ruas da cidade, vês uma multidão de pessoas que se afastou totalmente deste património.

É uma cidade rica, mas com uma significativa taxa de desemprego e uma altíssima taxa de imigração. Os habitantes de Colónia concebem-se culturalmente como vanguardistas, abertos a qualquer forma de expressão (mesmo que exagerada ou excêntrica). De facto, a preciosa tradição que constitui a sua identificação cultural já não é vivida de uma forma óbvia, mas é totalmente submersa pelos contrastes do século XXI. É este o ponto de partida da nossa presença aqui: enraizados no sentimento de pertença à Fraternidade, ao Movimento, desejamos amar este povo e testemunhar que esta tradição é chamada a ter um grande futuro.

Como se insere neste contexto a vossa responsabilidade na paróquia?

A realidade paroquial que me foi confiada subdivide-se em três paróquias e é composta por um total de dez mil almas. Georg del Valle é o meu coadjutor. Eu sinto a minha tarefa de pároco como que conexa ao caminho da tradição religiosa e cultural deste povo. Este caminho, para nós, encontra um ponto de força na paternidade do nosso Bispo, o Cardeal Meisner. Tivemos ocasião de encontrá-lo várias vezes e fomos muito encorajados. De facto, temos percebido a sua capacidade de valorizar o nosso carisma, de respeitá-lo e de guardar com espanto o nosso carisma. Ele deseja apoiar-nos para que a árvore da nossa Fraternidade possa crescer igualmente na sua diocese. A diocese de Colónia é grande e a cúria é imensa. Relativamente aos seus colaboradores, também não temos encontrado uma frieza nos aspectos burocráticos, fomos acolhidos com calor e mostraram-nos um grande desejo de trabalhar em conjunto.

Como ajuizas o começo da vossa missão aqui?

Experimentamos um acolhimento muito caloroso dos nossos paroquianos, em geral muito receptivos às nossas propostas. Mesmo não conhecendo nada da nossa Fraternidade, relacionaram-se connosco sem preconceitos. Desde o início, deixaram-se provocar pelo facto que quatro sacerdotes vivessem juntos. Muitos, até entre aqueles que têm uma responsabilidade activa na paróquia, ficaram fascinados com a unidade que se vê na nossa vida e percebem-na como uma grande promessa para a paróquia.

Compreenderam que não somos pessoas que estão aqui sem se envolverem com a realidade que nos circunda. Quem conduz a paróquia é acompanhado com uma amizade fraterna. Isto despertou neles uma esperança de poder viver uma amizade semelhante, seja entre eles, seja connosco.

26 Março 2010 | Archiviado en Artigos recentes, Destaques |  

Deixar espaço a Outro

sirit1Carta mensal aos membros da Fraternidade
Fevereiro-Março 2010
Caríssimos,
Iniciámos, há poucos dias, a Quaresma.
Quereria partilhar convosco algumas reflexões que me têm acompanhado nestes últimos dias e que já partilhei com os meus seminaristas.
A Quaresma convida-nos a deixar a imagem e o preconceito que temos de nós próprios para, assim, encontrar Deus e poder descobrir, n’Ele, o nosso “eu”. É Ele que nos abre às verdadeiras dimensões da nossa personalidade. É Ele que nos ensina o que é bom para a nossa vida e quais são as estradas para alcançá-Lo. Com certeza, esta passagem implica uma sensação de morte. Várias vezes don Giussani comenta esta experiência de mortificação como um semblante de morte. Parece que devemos deixar tudo.
O sacrifício é deixar espaço a Outro. Deixar que Outro tome espaço na minha vida, entre na minha vida a pouco a pouco até a ocupar totalmente, tornando-se no meu eu: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal. 2, 20). O sacrifício é deixar espaço a Cristo. É a Páscoa, a passagem do aparente ao real, do demónio a Deus, do eu como significado de tudo a Deus como significado de tudo.
O horizonte da Quaresma não é a mortificação, mas que cada um se encontre: “quem se perde, se encontra”. O sacrifício é a estrada necessária para que a nossa natureza, propensa ao mal e à divisão, possa encontrar a sua identidade.
Mas não se trata de uma passagem imediata. Implica muito tempo. O significado comum do sacrifício é aquele de sofrimento. Porque é que estas duas palavras estão fortemente ligadas? Qual a necessidade de fazer um sacrifício que nos faz sofrer? Porque conduz a uma mudança. É um sacrifício porque é a passagem para um bem maior, do qual ainda não temos percepção. Mas Deus é o nosso guia e enche-nos de consolação.
Santo Agostinho no décimo primeiro capítulo do “De Civitate Dei” afirma que o único sacrifício é a comunhão. O único sacrifício é a passagem há comunhão, ao ponto de proclamar: “meu eu és tu”. O único sacrifício, portanto, é o amor. É a grande revolução acarreada, primeiro pelos Profetas e depois pelo próprio Jesus, à história do mundo. O Seu amor torna possível todos os sacrifícios para afirmar o Outro, também o sacrifício da própria vida. Por isso, a Igreja identifica virgens e mártires como a forma mais elevada de amor, porque a virgindade e o martírio são o testemunho que a maior alegria da vida é afirmar Outro, afirmar que o tudo é um Outro.
As promessas que fazíamos, quando éramos jovens, não tinham outro sentido se não neste horizonte: afirmar o facto que o Outro é tudo. Assim, os sacrifícios que a Igreja convida a viver neste tempo quaresmal, como o jejum, a esmola e a oração, não são uma renúncia, mas uma afirmação. Neste sentido o sacrifício é a antecipação da Ressurreição.
O sacrifício, portanto, é a estrada para a comunhão, é o espaço que abrimos para o Amado. Isso é tão verdadeiro que no momento supremo da história do mundo, sacrifício e comunhão são duas palavras que indicam a mesma realidade: a Eucaristia. Na Eucaristia percebemos que o sacrifício já é comunhão, já é tudo, porque o sacrifício é fazer espaço ao Outro e isto já é tudo.

Vosso don Massimo

26 Março 2010 | Archiviado en Artigos recentes, Destaques |  

A paz, o dom do Natal

NativitargbSe o dom da Páscoa é a alegria, o dom do Natal é a paz. Um é condição do outro. Não pode, de facto, existir alegria sem paz.

Mas o que significa este dom da paz? Porque é que é o dom do Natal? A paz é o dom do Natal porque este representa a reconciliação de Deus com os homens, através da carne do Seu filho. «Porque Ele é a nossa paz, Ele que de dois povos fez um só (…)» (cfr. Ef. 2, 14). O fundamento da paz é, por isso, obra de Deus, a reconciliação com toda a humanidade que Ele realizou através da carne do filho.

Assim, cada um de nós poderá reconhecer o seu lugar na história do mundo e de Deus. E a paz é, precisamente, este reconhecimento.

O reconhecimento do lugar onde Deus nos quis, pensou e colocou, é, muitas vezes, simples, mas também poderá revelar-se complicado; muitas vezes iluminado e outras atormentado. Escreve Paul Claudel no “Anúncio a Maria”: «A paz, quem a conhece, de alegria e de dor se compõe». Deveremos reconhecer que a paz é o supremo bem e perante esse tudo poderá ser sacrificado, tanto que, o nome de Cristo é Paz, porque n’Ele a paz tornou-se possível. Sem a paz não há possibilidade de construir nada na vida. Seria como pretender edificar uma casa sem pensar, em primeiro lugar, nas suas fundações. E é sobre o fundamento da paz que se erige a possibilidade de construção da nossa vida. Se alguém pensasse no futuro, sem se apoiar no presente, a sua vida não conheceria progresso algum. Todas as suas aspirações, ou mesmo qualquer tentativa de realização, seriam vãs ou destrutivas.

E tudo isto vale igualmente para a missão. Que coisa seria do esforço dos missionários, como Pepe, Markus e Giovanni, sobre quem podemos ler neste número da Fraternidade e Missão, sem a certeza do próprio fundamento? Devemos, por isso, invocar do Espírito de Deus este dom, que coincide com o dom da fé, pois a graça da fé é precisamente esta: o reconhecimento da obra de Deus no mundo e do nosso contributo para essa obra.

A paz é um dom que exige coragem. Exige e cria homens corajosos, pois, sem coragem, não é possível reconhecer o próprio lugar no mundo, aquele autêntico, real, não aquele sonhado. Quando medito sobre a coragem penso muito nos meus irmãos em missão. Encontramos nestas páginas, por exemplo, a demonstração quotidiana de coragem da missão de Vicent Nagle (aliás, foi realizado um documentário sobre a sua missão), na Terra Santa, no coração da nossa história. Mas também, a coragem de uma irmã da Trappa di Vitorchiano. Recentemente acompanhei os seminaristas a uma visita ao seu mosteiro da região de Lazio (podem ler uma súmula do nosso encontro): apreendo sempre, nestas visitas, a certeza que acompanha aquelas irmãs, de que servem toda a Igreja através do seu silêncio escondido.

A paz cria homens fortes pois, quando reconhecem o verdadeiro fundamento da vita, tudo podem realizar. «Omnia possum in eo qui me confortat», «Tudo posso n’Aquele que me conforta» (cfr. Fil. 4, 13).

O bem que está na base de toda a nossa vida, que está na base da Igreja, no início da sua história, é o sumo bem, que todos nós, principalmente no Natal do Senhor, somos convidados a pedir com perseverança. Somos, ainda, convidados a reconhecer com simplicidade que tal dom, na realidade, já nos foi concedido. Trata-se, por isso, de reconhecê-lo com verdade e de alimentá-lo. Trata-se de construir sobre esse dom todas as demais esperanças da nossa existência.

7 Janeiro 2010 | Archiviado en Artigos recentes, Destaques |  

O sinal do perdão

3952350443_a56489feddCaríssimo Padre Massimo,

sei que durante o Meeting de Rimini foi consecutivamente projectada “A ultima ponte”. Muitos escreveram-me ou disseram-me tê-la visto, comprado e terem ficado muito impressionados. De entre as pessoas que aparecem no vídeo, com certeza ressalta a bela Hua Liang. Tenho uma relação particular com a sua família. Vou contar-te como tudo começou. Hua Liang mudou-se para Taiwan com o marido, aborígene como ela (mas pertencente a outra tribo), mais ou menos no período em que eu cheguei à ilha, há quase três anos.

Com eles estava também a pequena Mei Li, que naquela altura tinha 4 anos. Muito pequena, mas muito viva. Um domingo, apenas passado um mês da minha chegada a Taiwan, depois da Missa, Mei Li insistiu que a levasse a dar uma volta de bicicleta, juntamente com outra amiguinha da paróquia. Coloquei uma no banco de trás e a outra à frente e comecei a dar voltas ao adro da paróquia. As meninas estavam contentes e todos os que passavam por nós pareciam maravilhados, por causa deste jovem padre estrangeiro que brincava com as crianças.

De repente, quando estava mesmo em frente da imagem de Nossa Senhora, que está no adro da nossa Igreja, a bicicleta bloqueou-se. Eu tive por um segundo, a tentação de dar um golpe forte no pedal, mas acredito que foi graças à Nossa Senhora, que quis pôr a sua mão sobre a minha cabeça, que não o fiz. E, assim, voltei-me para ver como estavam as minhas amigas. Vi que a Mei Li não dizia nada, mas o seu pezinho estava preso nos raios da roda posterior. Comecei a suar frio. Não falava (e em que língua poderia ter falado?). Desci da bicicleta e comecei a tentar tirar fora o seu pezinho preso nos raios da roda da bicicleta. Só nesse momento a Mei Li começou a queixar-se. Tentei tirar-lhe o sapatinho e então vi que a ferida era comprida e parecia profunda. Eu estava um pouco confuso. Atraídos pelo chamamento feito por alguém, chegaram a correr o pai de Mei Li, Li Ming Wen, e o senhor Cheng Guo Fong. Como por milagre, o pé saiu fora quando a roda se mexeu. O pai e Cheng Guo Fong, com a Mei Li ao colo, foram a correr para o mais próximo centro de saúde. Eu corria atrás deles, juntamente com Hua Liang. Chegados ao ambulatório, o meu pensamento era somente um: se o raio tivesse lacerado o tendão, Mei Li ficaria coxa o resto da vida. Não tinha palavras. A tensão estava a destruir-me. Mas perto de mim encontravam-se Hua Liang e o seu marido. Os dois juntos consolavam-me. Consolavam-me. Eles consolavam-me, não obstante não se saber a gravidade da lesão provocada ao pé da filhinha deles! Depois de alguns minutos, o médico confortou-nos: o tendão estava ileso. A menina devia descansar por uma semana, mas não existiam causas de preocupação. Os pais de Mei Li acompanharam-me a casa, com um sorriso, para mim, inexplicável. “Como é que conseguem”, pensava para comigo, “a sorrir assim?”.

A partir daquele, é sempre assim! Não sei porque motivo, mas a partir daquele facto, Hua Liang, Li Ming Wen e Mei Li, nunca esconderam uma preferência por mim.

Há um ano e meio atràs, pouco depois do seu Baptismo, Hua Liang conseguiu finalmente ficar novamente grávida, depois de uma longa espera para ter outra criança. É um rapaz. Nasceu no meio de Dezembro. Na noite de Natal, depois da Missa, Li Ming Wen anunciou o nome do seu filho: “Chen En, como Xie’ Shen Fu, ou seja, como padre Xie”, que sou eu. Já me tinham dito que estavam a pensar dar ao filho deles um nome igual ao meu, coisa muito rara entre os chineses. E só de pensar nisso, ficava embaraço; e, ao mesmo tempo, cheio de comoção e de gratidão. E pouco importa se o primeiro carácter não seja exactamente igual ao meu, porque quando alguém lhes pergunta: “Porquê Chen En?”, eles respondem: “Porque soa bem e é o nome de Xie’ Shen Fu”. E se alguém lhes perguntar que coisa irá fazer o filho deles quando for crescido, ambos respondem: “Esperamos que seja padre”.

Outro dia estava a falar com Li Ming Wen e estava também a Mei Li connosco. “Já esta alta” disse. E ele disse-me: “Lembras-te como era pequenina quando a conheceste? Quando se aleijou na bicicleta?”. “Como posso não recordar-me?”, respondi. E ele afirmou: “A cicatriz ainda é visível, mas é sempre cada vez mais pequena”. Levantou o pé de Mei Li e mostrou-me a cicatriz: não esperava que fosse tão cumprida e visível… é muito provável que nunca desapareça.

O Senhor não anula, não apaga o mal que nós fazemos, ou os disparates que cometemos. Os sinais ficarão sempre. O Senhor simplesmente escreve uma historia em cima deles.

Adeus e até breve.

Lele

Taipei 3 de Setembro 2009

22 Dezembro 2009 | Archiviado en Artigos recentes, Destaques |  

Ele vem para chamar-vos

accolitatoA liturgia desta noite permite-nos entrar num momento muito particular da vida de Jesus. Ele está a descer de Bethania em direcção a Jerusalém. A vista é esplendida naquele lugar! Aos olhos de Jesus, a Jerusalém daquele tempo devia parecer impressionante na sua beleza. E Jesus ficou comovido e começou a chorar. Afinal, Ele tinha vindo para ela. Nenhum outro lugar da terra, nem Belém ou Nazaré nem Bethania ou Cafarnaum, era tão importante para Jesus como Jerusalém.

Jerusalém era a cidade de David e em cima do seu monte tinha sido construído o templo ao qual Jesus chamou “ a casa do meu Pai” (Jo 2,16), declarando, assim, ser Filho de Deus e de reconhecer no Templo o sinal que nos séculos era a imagem visível de Deus.

Ele tinha vindo para Jerusalém, mas esta cidade não O acolheu. Também a isto se refere São João no seu prólogo quando afirma: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam”. A vida de Jesus foi um contínuo dirigir-se para Jerusalém. A vida de Jesus foi o dia, a ocasião para Jerusalém, mas ela estava fechada sobre si própria, radicada na sua efémera santidade, que, no entanto, como papel cairá deixando na terra um mar de destroços e mortos.

O mistério de Jerusalém ilumina o mistério da nossa vida. Também para nós vem Jesus. Pede-nos o nosso “sim”. Ele vem em muitos momentos da nossa vida, pode-se dizer que ele vem em cada instante da nossa vida. Mas existem alguns momentos que adquirem um significado particular. Estes são, para utilizar uma expressão de Jesus, “o seu dia”. E através do nosso “sim”, tornam-se o nosso dia.

Este “sim” que vós estais a viver, caros irmãos que recebem o acolitado e o leitorado, é um desses dias. Dentro do simples rito e da simples atribuição de uma tarefa, no contexto da ainda longínqua preparação ao sacerdócio, acontece algo de muito importante. São chamados por Deus a reconhecer a sua contínua vinda na nossa vida.

Ele vem para chamar-vos, para vos solicitar a segui-Lo, para se abrirem à sua manifestação. Neste modo a vossa vida abre-se, para sempre, a novas dimensões, em novas direcções, para novas descobertas e, por fim, floresce naquela sua estatura definitiva que o Pai pensou para cada um de vós e que será o vosso rosto eterno no Reino de Deus.

Em Jesus, Deus vem definitivamente. Todas as suas vindas não são outra coisa que manifestações consecutivas de uma única vinda. Iremos contemplá-Lo melhor no próximo Advento e Natal. Há um só Natal, assim como há um só Advento e uma só manifestação de Jesus. Mas, para o nosso coração débil, para a nossa mente hesitante, para a nossa liberdade tão incerta, Ele vem continuamente.

Ele necessita de ser continuamente descoberto e acolhido. Assim esta noite, vem novamente para vós e virá nos próximos dias, meses e anos. Em Jesus o Pai manifesta-se não só definitivamente, mas também completamente. Jesus é a realização plena de cada promessa. No seu “sim”, alto, seguro, luminoso, tornou possível o nosso “sim” que, antes tímido e quase com fatiga, se torna sempre mais alegre, convencido e quase natural. Também nós nesta noite queremos dizer “sim” juntamente a vós. “Sim”, quero seguir-Te e dar-Te tudo de mim. É importante este “tudo de mim”. Jesus disse quem quer seguir-Me “tome a sua cruz, e siga-me”.

Leio neste convite de Jesus a solicitação a segui-Lo com toda a minha pessoa, com toda a minha mente, com todo o meu coração e, também, com toda a minha fragilidade, cansaço e até com os meus pecados. Disse João Paulo II na encíclica Redemptor Hominis “O homem que quiser compreender-se a si mesmo profundamente  deve, com a sua inquietude, incerteza e também fraqueza e pecaminosidade, com a sua vida e com a sua morte, aproximar-se de Cristo. Ele deve, por assim dizer, entrar n’Ele com tudo o que é em si mesmo, deve «apropriar-se» e assimilar toda a realidade da Encarnação e da Redenção, para se encontrar a si mesmo” (RH10).

Jesus amava Jerusalém. Ele ama aquele e aqueles aos quais é enviado pelo Pai. A intensidade do seu chorar revela a intensidade do seu amor. Ele ama duma forma particular cada um de vós, que nesta noite visita com uma graça especial, oferecendo-Se todo e pedindo, em troca, a todos vós de doar generosamente toda a vossa vida para poderem ser felizes ministros da Sua graça.

Homilia na Casa de Formação, na atribuição do leitorado e acolitado a uns seminaristas

19 de Novembro 2009

22 Dezembro 2009 | Archiviado en Artigos recentes, Destaques |  

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